27
jul
2015
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PROTEÍNAS: MASSA MUSCULAR E GANHO DE GORDURA (DUDU)

O destino das proteínas da dieta depende do estado fisiológico e nutricional do organismo, e depois de serem degradadas em aminoácidos no trato gastro-intestinal esses aminoácidos podem produzir: energia, glicose, corpos cetônicos, colesterol e ácidos graxos. Esses aminoácidos também podem ser sintetizados em novas proteínas, com funções específicas no organismo (enzimas, hormônios peptídeos, proteínas transportadoras, proteínas musculares etc).

Para que os aminoácidos sejam metabolizados pelo organismo é necessário a remoção do nitrogênio da molécula (grupo amina), e a molécula remanescente passa a se chamar esqueleto carbônico ou alfa-cetoácido. A amônia retirada dos aminoácidos deve ser eliminada do organismo principalmente na forma de ureia, e quando ingerimos grandes quantidades de proteínas na dieta a excreção de ureia também se eleva. O destino dos esqueletos de carbono dos aminoácidos então dependerá do estado nutricional e fisiológico.

Quando se reduz os carboidratos da dieta o principal destino dos alfa-cetoácidos será a conversão em corpos cetônicos e glicose. A glicose é formada no fígado através da gliconeogênese (formação de glicose à partir de compostos não carboidratos, como os esqueletos de carbono dos aminoácidos) quando os níveis de insulina estão baixos, e é estimulada pelo glucagon e pelos glicocorticoides (cortisol). É importante lembrar que nem todo aminoácido pode ser convertido em glicose, como é o caso da lisina e da leucina que só podem ser convertidas em acetil-Coa, e consequentemente corpos cetônicos. Numa situação em que os carboidratos da dieta estão muito baixos a produção de glicose é necessária para manter os níveis de glicose no sangue, para que essa seja usada por tecidos que dependem de glicose, como o cérebro e as hemácias. Nessa situação de dieta muito restrita em carboidratos também ocorre um aumento na produção de corpos cetônicos, que serão usados como fonte de energia pelo organismo, em parte até mesmo pelo cérebro.

Agora, um ponto mais controverso é a conversão de proteínas em gordura. É comum atribuir que um excesso de calorias leve a um ganho de gordura, não importa de onde venham essas calorias, carboidratos, lipídios ou proteínas. Até mesmo na maior parte dos livros de bioquímica e nutrição se fala que um excesso de proteínas vai se converter triglicerídeos (gordura). No entanto, ao se dar uma atenção maior aos detalhes do metabolismo não se pode dizer que um excesso de proteínas se converter em gordura seja uma via tão favorecida quanto um aumento nos carboidratos ou gorduras da dieta. Na verdade, nem a conversão de carboidratos em gordura (lipogênese) tem uma contribuição significativa no armazenamento de gordura pelo corpo em uma situação de saldo calórico positivo normal. Em uma situação assim os carboidratos favorecem o acúmulo de gordura por um “efeito poupador de gordura”, já que são usados preferencialmente pelo organismo como combustível energético, reduzindo a queima de gordura e favorecendo o armazenamento dos lipídios da dieta. Nessa situação, dieta com maior proporção de carboidratos, tanto os carboidratos como as gorduras em excesso tendem a aumentar os estoques de gordura, mas com excesso de proteínas não parece ser o caso.

Apesar de alguns aminoácidos poderem ser convertidos em ácidos graxos (aminoácidos cetogênicos), isso por si só não mostra que esse tipo de conversão seja uma via comum no metabolismo intermediário. Alguns estudos tem mostrado que o excesso de proteínas da dieta dificilmente leva a um acúmulo de gordura, ao contrário de carboidratos e lipídios. De fato, se a lipogênese (síntese de ácidos graxos) através de carboidratos já não fornece uma contribuição significativa para aumento dos estoque de gordura corporal, a contribuição das proteínas na lipogênese em uma dieta hiperproteica tende a ser insignificante, com a diferença adicional que proteínas em excesso não podem ser armazenadas pelo organismo. Embora os esqueletos dos aminoácidos possam ser catabolizados em acetil-Coa, o intermediário comum do metabolismo e substrato inicial para síntese de ácidos graxos, o processo de síntese de lipídios não parece ser tão favorecido se não existir também um excesso de carboidratos. Uma boa quantidade de carboidratos é necessária para que ocorra síntese de ácidos graxos e triglicerídeos, pois além níveis elevados de insulina e ATP (energia) são necessários certos substratos para que ocorra formação de ácidos graxos e triglicerídeos (gordura), substratos fornecidos pela via glicolítica (citrato e glicerol-fosfato) e pela via das pentoses fosfato (NADPH), as duas vias do metabolismo dos carboidratos.

Sendo assim, o destino das proteínas em uma dieta hiperproteica e hipercalórica tende a ser na maior parte a produção de energia, através do aumento da oxidação de aminoácidos. A síntese proteica depende muito pouco do excesso de proteínas, e muito mais do ambiente hormonal, de forma que um excesso de proteínas aumenta sua degradação e a produção de ureia. O que quero dizer com tudo isso é que um aumento de proteínas na dieta só tem utilidade em dietas pobre em carboidratos, mas que de qualquer forma é muito improvável ter ganho de gordura por excesso de proteína na dieta.

abraços, dudu haluch

Referências:
Bioquímica Básica, Marzzoco & Torres.
Bioquímica Ilustrada, Harvey & Ferrier.
Nutrição Avançada e Metabolismo Humano.
The effects of consuming a high protein diet (4.4 g/kg/d) on body composition in resistance-trained individuals
Jose Antonio, Corey A Peacock, Anya Ellerbroek, Brandon Fromhoff, and Tobin Silver
No common energy currency: de novo lipogenesis as the road less traveled
Marc K Hellerstein

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