9
ago
2016
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Vida, morte e o sentido da felicidade

O fato de Deus não existir é um problema para um homem que busca um sentido para sua vida, pois a partir disso ele sabe que precisa criar seus próprios valores de bem e mal, pois se não há um bem supremo, então não há porque ser honesto, amoroso, não mentir, não agredir quem quer que seja. Não temos o imperativo categórico de Kant, o bem e o mal são simplesmente aquilo que desejamos, o que impõe a nossa vontade. O homem está condenado a ser livre (Sartre).

Como disse Dostoievski: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. De fato, um homem que não crê em Deus ou que duvida da sua existência precisa lidar com isso, ele é livre e senhor de si, não há nenhum valor absoluto para justificar seu comportamento, nenhum bem supremo. Não é uma questão de escolher acreditar, é simplesmente não conseguir acreditar. Acreditar em um Deus torna tudo mais fácil, mais confortável.
Mas esse é o menor dos problemas, ele está ligado a algo muito maior, aquilo que provavelmente deu origem a toda e qualquer religião, o medo da morte. O homem é um ser diante da morte, a angústia é o sentimento que coloca o homem diante disso, o fim da sua existência, o fim de todos os seus projetos (Heidegger). Se não existe um Deus, se não existe um mundo além, como posso ser feliz?

Só um homem plenamente satisfeito com a vida pode ser feliz diante da morte, aquele que faz da sua existência uma alegria, que vive a vida intensamente, que acredita que essa vida basta para ser feliz. Se não é feliz nessa vida, porque acha que será feliz em outra? (Osho) Talvez você nunca tenha imaginado o que significa a eternidade, nunca tenha passado pela sua cabeça que os momentos felizes existem porque existem os momentos tristes, que a vida só tem sentido porque existe a morte, que a sua felicidade é aumento de poder – superação da resistência (Nietzsche), que o amor só é belo porque existe o medo, que a saudade faz sofrer e faz amar ainda mais.

Diante disso, como faria sentido uma eternidade onde só existisse a felicidade plena, como seus filhos nascidos na eternidade não sofreriam de tédio não conhecendo o oposto do amor, não conhecendo a tristeza, não conhecendo a morte. Como depois de 100 anos você manteria entusiasmo por uma vida sem nenhum desafio? Alguns dias já seriam insuportáveis para um espírito livre. Se a vida vale à pena ser vivida, é justamente porque ela é finita e você precisa escolher viver ela da forma mais bela possível.

“Torna-te aquilo que tu és” (Píndaro, citação de Nietzsche)

abraços, Dudu Haluch
inspirado pela morte e pela vida

1 Response

  1. João

    Crer na existência de um Deus ou de vida após a morte é algo bom demais pra ser verdade. ”Diante disso, como faria sentido uma eternidade onde só existisse a felicidade plena”, não precisa fazer sentido, essa é a questão, a vida não tem propósito e todo o tempo gasto pensando nisso é desnecessário, o problema é que não somos nós que escolhemos sentir ou não sentir essa frustração, lidar com o que cremos ser a verdade é difícil, no meu caso, acredito que já aceitei o fim da minha existência e das pessoas que eu amo. Achei que se eu reconhecesse isso, meu overthinking ia melhorar, realmente diminuiu mas a vida perdeu o seu valor e a falta de propósito só aumentou, comecei a tratar diversas coisas com indiferença, acho que é por isso que gostei do bodybuilding e vim parar aqui, esse esporte é a maneira que arrumei de ocupar a minha cabeça a maior parte do tempo. Comecei a me preocupar com questões que estão ao meu alcance, isso não é suficiente pra ser feliz mais já é o suficiente pra não me destruir e mesmo não sabendo se algum dia irei sentir as coisas que senti quando era criança, uma súbita onda de esperança me conforta um pouco.

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